Imagem: Ophelia, de MillaisBanhou-se em um cântaro de lágrimas.
De molhada, minguou.
Afogou-se de minguada.
Imagem: Gust of Wind, de Lucien Levy-DhurmerBarulho de campainha me tirando do transe internáutico. Deixo mil janelas abertas para atender à porta. Uma senhora, lá do alto da escada, com uma criança: "Posso conversar com a senhora um pouquinho?" e eu, de cabelos desgrenhados, dizendo que era uma má hora, que estava muito ocupada com coisas que tinha para entregar. Era verdade.
Um "Do que se trata?" escapoliu da minha boca sem que eu tivesse tempo de engoli-lo. "Ah, é que eu queria ler um trecho da Bíblia pra senhora...", disse-me ela, meio sem-graça. "Talvez um outro dia", foi a minha mentira.
Voltei para dentro de casa, procurando quem sabe aquelas ursas que devoraram uns jovens por terem "xingado" um profeta de careca*. Se ainda ela quisesse ler um trecho da Clarice pra mim...
*Alusão a "2 Reis 2: 23-24", onde Elias, zombado de careca por uma turba de moleques, os amaldiçoa. Do mato, saem duas ursas, símbolos da ira divina, que despedaçam 42 deles. Uh!
Além do mundo de vidro havia o menino. Ela o viu uma vez. Ele sorriu e estendeu-lhe a mão. Viu-o transparente ela, que de sair de seu mundo estava enregelada.
De transparente que o pensava, julgou nele poder morar, como morava no mundo de vidro. Profetizou-se aquecida.
Ela o abriu e entrou. Ele a ajudou. Ela acomodou-se no calor translúcido. Achou que não esfriaria mais. Sorriu.
Então ele a digeriu. Seguiu seu caminho. Dela, só os cacos.