Quarta-feira, Janeiro 09, 2008

De cântaros e "desencântaros"

Imagem: Ophelia, de Millais


Banhou-se em um cântaro de lágrimas.
De molhada, minguou.
Afogou-se de minguada.

Segunda-feira, Dezembro 10, 2007

A maldição da 161

Imagem: Tantalo, de alguém cuja assinatura é indecifrável

E eis que uma maldição veio ressucitar meu falecido blog: a maldição da página 161.
E eu, que gosto tanto do que é a esmo, resolvi encarar a brincadeira, que consiste no seguinte:

1 - procurar um livro próximo;
2 - abri-lo na página 161;
3 - procurar a quinta frase completa;
4 - postá-la no seu blog;
5 - não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6 - repassar a outros cinco blogs.

Recebi do
Salvaterra, que recebeu da Carol Marossi, que recebeu da Julia, que recebeu de não-sei-quem.

Repasso para
Kandy e Ricardo, que são dois dos poucos blogs que eu visito com certa frequência, eu que não sou tanto desse mundo aqui.
Ei-la:
"Estremeci ao pensar na condenação que as gerações futuras poderiam fazer recair sobre mim, que não hesitara em comprar a própria paz ao preço, talvez, do flagelo de toda a raça humana."
(Frankenstein, ou O Moderno Prometeu, de Mary Shelley)
(Medo!)

Sexta-feira, Janeiro 26, 2007

Redemoinho

Imagem: Gust of Wind, de Lucien Levy-Dhurmer

Quando eu era criança, um "bruxo" foi até minha cidadezinha apregoando que havia um diabinho em cada redemoinho de vento e folha. Eu, que me perdi num, venho cá, neste blog abandonado contar: é verdade. No redemoinho a serenidade escapa e pequenos demônios se enroscam em nossos cabelos.

Quarta-feira, Dezembro 20, 2006

Ira Divina

Clarice, Fernando e eu deitados num banco de praça da Vila Romana

Barulho de campainha me tirando do transe internáutico. Deixo mil janelas abertas para atender à porta. Uma senhora, lá do alto da escada, com uma criança: "Posso conversar com a senhora um pouquinho?" e eu, de cabelos desgrenhados, dizendo que era uma má hora, que estava muito ocupada com coisas que tinha para entregar. Era verdade.

Um "Do que se trata?" escapoliu da minha boca sem que eu tivesse tempo de engoli-lo. "Ah, é que eu queria ler um trecho da Bíblia pra senhora...", disse-me ela, meio sem-graça. "Talvez um outro dia", foi a minha mentira.

Voltei para dentro de casa, procurando quem sabe aquelas ursas que devoraram uns jovens por terem "xingado" um profeta de careca*. Se ainda ela quisesse ler um trecho da Clarice pra mim...

*Alusão a "2 Reis 2: 23-24", onde Elias, zombado de careca por uma turba de moleques, os amaldiçoa. Do mato, saem duas ursas, símbolos da ira divina, que despedaçam 42 deles. Uh!

Segunda-feira, Dezembro 18, 2006

Nostalgia

Imagem: praça da minha cidade natal, no google earth, mas poderia ser tanta coisa...

A ampulheta sugou os grãos de areia coloridos e ensolarados, tomou para si a imagem daquele lugar naquele exato instante, encapsulou a luz e todos os contornos, apoderou-se de todos os elementos da cena, animados e inanimados, deixou-me apenas a lembrança, a sensação, o querer-mais estalado na língua.
E por mais que revisite, por mais que forme mosaicos com os pedaços que me pareceram restar, não é mais o mesmo vento, nem a mesma luz, nem o mesmo contorno. Tampouco o meu.

Terça-feira, Dezembro 12, 2006

Altura e ímpeto

Imagem: Jacob Peter Gowy, A Queda de Ícaro


Amava era a altura que não possuia. Tinha ganas de musa. De alçar vôos ao que lhe era rarefeito e de despencar colecionava, alegre, marcas feiíssimas; daquelas explêndidas, que assim o são apenas nas esferas da arte.

Segunda-feira, Dezembro 11, 2006

A Menina de Vidro

Imagem: Frank Horvat que me perdôe a modificação...



Além do mundo de vidro havia o menino. Ela o viu uma vez. Ele sorriu e estendeu-lhe a mão. Viu-o transparente ela, que de sair de seu mundo estava enregelada.
De transparente que o pensava, julgou nele poder morar, como morava no mundo de vidro. Profetizou-se aquecida.
Ela o abriu e entrou. Ele a ajudou. Ela acomodou-se no calor translúcido. Achou que não esfriaria mais. Sorriu.
Então ele a digeriu. Seguiu seu caminho. Dela, só os cacos.